3 de setembro de 2008

Interregno...



Este espaço vai de férias... os amigos foram saindo de fininho e deixaram-me aqui sózinha, por isso vou encostar a porta e vou de férias...


Talvez voltem as inconfessáveis confissões, talvez não... quem sabe?

10 de agosto de 2008

Arrepios XXV...

- Ainda falam das mulheres…

Levantei-me para sair, Ela disse que ficava por ali, saímos em direcção ao carro e a sua mão assentou, naturalmente, sobre o meu ombro…



Tomámos um café a ver o mar, descemos à praia e passeámos descalços na areia molhada, arrastando os pés na ponta das ondas, como tanto gosto de fazer.



Apercebi-me que ainda não tínhamos perdido o contacto físico desde que saíramos do hotel, ora tinha a mão sobre o meu ombro, ora na minha cintura, ou me agarrava pela mão e me beijava os dedos, ora me afagava o rosto suavemente afastando os cabelos, ora nos beijávamos num abraço apertado… mas o contacto ainda não se perdera…



Sabia-me bem aquele toque, aquela pele diferente da minha, sentir o calor daquele corpo quase desconhecido…



Almoçámos na zona, sempre com a água por perto, ficámos sentados à mesa mesmo quando todos os outros clientes já tinham saído… bebendo pequenos golinhos e de olhos perdidos nos olhos do outro, de mão na mão…



O sol começava a pôr-se anunciando o fim daquele domingo e daquele fim-de-semana…

- Temos de ir…
- Tem mesmo de ser…?
- Claro, a vida não pára, e a sua está à sua espera, longe…
- Pois…

De regresso pela marginal a visão do rio pintado das cores do pôr-do-sol fazia-me apetecer parar o tempo…

- Silenciosa de novo…?
- Apenas a desfrutar…

Despedimo-nos já na cidade, saiu do carro para me dar um último abraço, enquanto me sussurrava ao ouvido:

- Voltamos a ver-nos?

Olhei-o nos olhos, negros, profundos…

- Tem os meus contactos…

Entrei em casa, fui largando os sapatos e a roupa e meti-me debaixo de um duche quente, quando saí tinha uma nova mensagem no telemóvel:

- Adorei… adoro-te!

15 de julho de 2008

Arrepios XXIV...

- Conheço um ou dois sitios bem interessantes para o fim em vista. Será agradável sair um pouco. Vou apenas tomar um banho rápido, se não fôr inconveniente.

Já lá vai o tempo em que os hoteis não tinham café de jeito. O dali devia ser óptimo, como tudo em geral. Percebi a mensagem.

Percebi também que existia uma possibilidade muito concreta de eu estar a fazer figura de parvo, tendo servido de negaça para uma armação bem montada. A forma como ela olhava para ele dava-me uma pista ou outra para a razão da sua abordagem. apenas o facto de ele ter descido com a minha amiga me baralhou por um instante.

Já sabia o nome dela (vou chamar-lhe "Y"). Não fora dificil. Uma pequena hesitação na altura certa e as pessoas apresentam-se automáticamente.

Durante o banho, enquanto tentava "esquecer" a noite em claro, lembrava-me dela. Pensava que se tivesse ficado no quarto ela estaria ali comigo, agora. Podia sentir o seu cheiro, a sua pele, dar-lhe banho...

Não estava. Perguntas como "quem seria ela", "até quando iria ficar comigo", "seria casada?", assolavam-me o espírto. Sacudi-as. Afinal, ainda só sabia o seu nome há alguns minutos, tinha tempo para o resto. Sequei-me enérgicamente, vesti-me e desci, esperando encontrá-la à minha espera.

Na verdade, continuavam as duas em amena conversa. Pareciam estar a dar-se bem. O meu "amigo", ao contrário do esperado, já não estava na sala e eu perguntava-me o que andavam aqueles dois a fazer. No fim de contas, também não tinha nada com isso...

- Vamos?

- Estávamos quase a criar raizes à sua espera!

- Ainda falam das mulheres...

14 de julho de 2008

Arrepios XXIII...



Saí a porta do quarto e fui literalmente abalroada por um fulano alto e moreno.
O cheiro a banho acabado de tomar e a barba feita de fresco, sempre me atraíram.
Apeteceu-me meter com ele…

- É bombeiro?

- Perdão?

- Com tanta pressa pensei que houvesse fogo.

A gargalhada saiu-nos espontânea e simultânea, e os seus olhos escuros brilharam ainda mais. Entrámos no elevador e convidou-me para o acompanhar ao pequeno-almoço, quando lhe disse que ainda estava acompanhada respondeu-me, com ar sarcástico, que não tinha reparado… o seu olhar sedutor parecia rir-se…

Já na sala de refeições sentou-se sozinho perto da janela, mas virado para a mesa onde o meu “amigo” estava sentado com Ela… que fazia ela na mesa com ele…?

- Bom dia. Vejo que tem companhia, posso juntar-me?

- Estava à sua espera… deixe-me que a apresente…
o seu ar meio aflito foi evidente, nem sequer sabia o meu nome, apresentar…?

Ela estava agora vidrada no “bombeiro”, mal levantou os olhos para mim e piscou-me o olho…

- Bom dia, está muito fixa no bombeiro…

- Bom dia, bombeiro..!??

Não contive uma gargalhada, o que pareceu deixar o meu amigo ainda mais baralhado.

- Conhece-o…?

- De um encontrão no corredor… vinha com uma pressa que quase me deitava ao chão. Agora parece já não ter pressa nenhuma! Vou buscar comida, já volto.

Passei mesmo em frente do “apressadinho bombeiro” de olhos sedutores… que me seguiu até ao buffet…

- Afinal, parece que a sua companhia já arranjou outra parceira de mesa… podia ter tido a gentileza de comer comigo.

- Não me conhece… sou pouco dada a gentilezas… e para mais os seus olhos ainda não se despegaram da nossa “parceira de mesa”…

- Quem lhe diz que se despegaram de si…
disse enquanto roçava "acidentalmente” a mão nas minhas costas, provocando-me um arrepio.

Servi-me de umas frutas, um sumo, e umas fatias de queijo fresco que reguei generosamente com mel e voltei à mesa. Sentei-me a comer enquanto eles conversavam, de lado para a janela podia ver pelo canto do olho que “ele” não despegava os olhos de nós.

- Preciso de tomar um café a sério, não há por aqui um bom café?

11 de julho de 2008

Arrepios XXII...


- Não quer sentar-se primeiro? Assim parece que veio, não pela companhia, mas para inquirir. Permita-me... o que a levou a pensar que hoje desistiria do convite?

“Imaginar que talvez não fosses mais um idiota de um D. Juan?...”

- Para começar, não entendi a motivação do convite...


“Sabe tão bem, parecer loira...”

Olhou de relance o telemóvel que dava sinal. Os olhos denunciaram a hesitação. Escreveu apressado, como quem escreve um qualquer recado sem importância.


“Disfarças bem mas não convences”

- Já nos tinhamos visto no Moinho
“Ai já?? Pensei que estavas atento ao beijo...” (esboçou um sorriso irónico que lhe terá passado despercebido porque continuava a frase apesar de o telemóvel dar sinal novamente) depois aqui, ainda por cima com quem... “já estás a meter o nariz onde não és chamado!” Achei giro a coincidência “Ou temeste ser denunciado?” e tive vontade de a conhecer. Não foi nada racional. “Ah pois não, que ideia?!” Apenas um impulso. Foi má ideia?

Estava visivelmente nervoso e ficava ridículo naquele papel de descontração forçada. “Homens!! Nem precisam de livro de instruções! Têm um rótulo na testa a indicar sempre a próxima sacanice” Sorriu para suster o riso e soltar a tensão que lhe provocava a recordação da mensagem que ele lhe enviara “Vamos jogar. Amo-te!” Há quanto tempo não faziam aquele jogo...

- Parece que os nossos “amigos” desceram juntos. Digo-lhes para nos fazerem companhia ou ainda está irritada com ele?


- Raramente me irrito, o médico disse-me que prejudica gravemente o meu umbigo! – tinha de dizer um disparate qualquer para soltar o riso e a tensão, sem levantar suspeitas - Amigos? Ele? Desculpe, não percebi...


- O seu marido... Você ontem estava a discutir com ele no bar, por ele a ter perseguido...


- Deve estar a fazer confusão...


- ??? Foi o que você disse...


- Então peço-lhe desculpa, devia estar a pensar no livro que estou a escrever e confundi a conversa.


- Mas o seu marido?... Aquele homem com quem estava no bar?...


- Agora é você quem deve estar a fazer confusão.


“Aposto que os teus neurónios andam à estalada uns aos outros”

Não ouviu mais nada. Enrolou o cabelo nos dedos, como fazia sempre que estava tensa. Ali estava ele, mais charmoso que nunca, naqueles olhos que o polo azul tornava ainda mais negros como o cabelo, ainda húmido. Conseguia sentir-lhe o cheiro mesmo à distância. Um arrepio percorreu-lhe o corpo ao imaginar-lhe o toque. Sentiu a excitação crescer quando ele a fitou. A figura dele ofuscava o mundo em redor, de tal forma que não a deixou ver a mulher que se aproximava...

- Bom dia. Vejo que tem companhia, posso juntar-me?

Nem lhe permitiu perceber a atrapalhação que provocara no interlocutor que tentava apresentá-las sem saber o nome de uma ou de outra.

A Outra

8 de julho de 2008

Arrepios XXI...


O telefone vibrou ao mesmo tempo que emitia um sinal discreto: "SMS"

- Conseguiu sair sem me acordar :-)

- Não tomei banho. Ainda estou a cheirar a si.

- Estava assim tão farto da minha companhia?

- Não consegui dormir. Você desmaiou com a primeira claridade. Vim para o terraço ver o alvorecer.

- Onde está?

- Dê-me um momento por favor.

Senti que estava a ser indelicado com a minha companhia de ocasião que, no entanto, se esforçava por ignorar a troca de mensagens.

- Parece que os nosso "amigos" desceram juntos. Digo-lhes para nos fazerem companhia ou ainda está irritada com ele?

O Ele

4 de julho de 2008

Arrepios XX...

Pediu simplesmente um café e uma tosta, que não chegou a acabar, porque a raiva não o deixava engolir. Não estava irritado por a ter encontrado ali, mas sim por ela ter duvidado dele. Segui-la era a última coisa que faria na vida. Não se andavam a entender bem, mas nunca duvidou dela, nem pensou que algum dia ela duvidasse dele.

Tinha saudades do riso contagiante dela, do seu sorriso sincero e, pensando bem, era sobretudo pelo actual sorriso amarelo, pelo semblante indiferente e pela ausência de intimidade e diálogo, que os últimos meses lhe provocavam um mau humor crescente.

Adormeceu a pensar na mulher. Embora ele discordasse sempre, ela própria afirmava que não era bonita, simplesmente interessante.

Cativava a postura assumida naquele corpo delgado e seguro, mas o que realmente atraía eram os olhos, grandes e expressivos, duma face emoldurada por um longo cabelo desalinhado. Todo o rosto se iluminava quando a boca sorria, desde o brilho dos olhos aos lábios vermelhos. Era nessa altura, que a comum e vulgar silhueta, se transformava numa mulher atraente e esbelta.

O busto pequeno ganhava firmeza, os caracóis, que sacudia entre os dedos, soltavam-se no movimento descontraído de ombros e cabeça e toda ela ganhava uma luminosidade onde sobressaía o olhar requintado.

Devia ter-lhe calado as acusações com um beijo e as dúvidas com as mãos ávidas de desejo do corpo dela, mas optara erradamente por sair irritado e ofendido.

Despertou com o sol a bater-lhe na cara e o som do telemóvel a vibrar na madeira da mesa-de-cabeceira.

Tenho saudades do homem por trás da aparência rude...

Podes ir-te embora ou podes conquistar a desconhecida como há 5 anos...


Pestanejou, sentou-se na cama e leu as duas mensagens, repetidamente, para ter a certeza que estava acordado. Num golpe de mestre, puxou para o lado o lençol branco com letras bordadas, saltou da cama e correu para a banheira, enquanto pensava Vamos jogar! Amo-te!

Com o cabelo negro ainda molhado, agarrou a carteira e o telemóvel e saiu acelerado, esbarrando com o mulherão que passava em frente à porta do seu quarto.

- Perdão!

- É bombeiro?

- Perdão?

- Com tanta pressa pensei que houvesse fogo
– respondeu-lhe ela com uma gargalhada sarcástica.

Riram-se ambos enquanto entravam no elevador, olhos nos olhos.

- Quer acompanhar-me na primeira refeição do dia?

- Seria um prazer, mas penso que ainda estou acompanhada.

- Perdoe-me, não reparei
– respondeu ele enquanto olhava irónico em redor e a porta do elevador se abria.

Facilitou-lhe a entrada na sala, retribuiu o cumprimento e ficou a observar o andar elegante, as pernas bem feitas e o rabo vigoroso. Um mulherão!

Escolheu a mesa livre junto à janela, de frente para o rosto de olhos grandes e lábios vermelhos, emoldurado por longos cabelos desalinhados. Fitou-a profundamente, numa manifestação de desejo e tesão incontida que a perturbou e a fez mexer no cabelo daquela forma elegante, como fazia sempre que ficava tensa.


O Outro

3 de julho de 2008

Arrepios XIX...



No quarto esperava-nos uma garrafa de Champagne já no frappé. Apesar de duvidar que eu aceitasse tinha tudo preparado…

Abriu a garrafa, serviu as flutes e fez menção de o tomar na varanda… o brilho da Lua no mar negro estava apelativo, mas eu estava ali para lhe provar que não me conhecia… lembrei-me do seu sms depois do banho “Bem me podia ter convidado…”

Fui à casa de banho e pus o jacuzzi a encher, regressei ao quarto e olhei-o nos olhos em ar de desafio. O seu sorriso e o brilho dos olhos negros foram significativos, tinha percebido a mensagem.

Agarrou-me pela nuca e beijou-me intensamente, as suas mãos percorriam-me as costas e a nuca causando-me arrepios, os mesmos arrepios que sentira desde o primeiro instante que o vira.

Permanecemos agarrados num beijo até a água quase encher o jacuzzi. Quando nos soltámos, acendeu velas de aroma doce a baunilha e canela pela casa de banho. Ficou a ver-me despir, apreciando cada movimento, podia ver-lhe as reacções através da parede de espelho, só a fraca luminosidade ocultava o quanto me estava a fazer corar.

Soltou um “Hum” de apreço, e os seus olhos pareciam faiscar de tesão.

Mergulhámos no banho quente e perfumado. Encostado a mim, de corpo inteiro, podia sentir a sua pele, o seu calor, as suas mãos que me percorriam o corpo todo, tacteando, sentindo, sondando cada pedaço do meu corpo, como se quisesse memorizá-lo…

Os seus beijos deixavam-me ainda mais quente e excitada, os arrepios tinham-se agora transferido para o interior do meu ventre, num crescendo de excitação, que os meus mamilos erectos e rígidos não conseguiam ocultar. Beijou-os, acariciando-os, enquanto gemia suavemente de agrado.

Embrulhou-me num roupão e transportou-me ao colo até à cama. Começou a beijar-me um pé, dedo a dedo, lambendo-os, chupando cada um deles, beijando a palma dos pé, subiu pela perna até ao joelho, beijando e lambendo cada centímetro de pele, para terminar na covinha do joelho, num perfeito choque eléctrico.

Recomeçou no outro pé, repetindo cada beijo, cada toque, numa tortura calculada e prazeirosa, subindo depois ao interior das coxas, beijando-as e lambendo-as, enquanto as suas mãos me percorriam os quadris e a barriga.

Despejou um pouco de Champagne sobre o meu peito, escorrendo até ao umbigo, para depois o sorver directamente da pele. O efeito dos seus lábios, da sua língua, do toque frio do Champagne e das bolhinhas na pele, estavam a enlouquecer-me completamente!

O fogo de tesão que me percorria era superior a qualquer encenação imaginável. Perdi a noção do espaço e do tempo, lembro-me de ver os primeiros alvores da madrugada sobre o mar, não queria acreditar que o dia já estava a nascer…

Acordei já o sol ia alto, a cama estava desfeita mas vazia…

2 de julho de 2008

Arrepios XVIII...

Pelos vistos a minha ausência teve os seus efeitos, mais que não seja o de a levar a fazer algo para recuperar o controle da situação.

"Ela" era daquelas pessoas que gosta de ter o comando na mão, mas não suporta ficar "por baixo". A partir daí...

A partir daí foi assinar a conta, tentando disfarçar o tremor das mãos, dirigir-me para o elevador sem perder a compostura e portar-me bem durante a curta viagem. Se por um lado me parecia um pouco "desafiante", o ar quase irritado ajudava a esconder algo mais: Tesão. Excitava-a a perspectiva de subir para um quarto de hotel com um estranho, mais ainda tendo sido dela a "iniciativa". Decidi ver até onde ia.

Chegamos ao quarto. O "Veuve Clicquot Ponsardin" já estava a "suar" no balde, como que por milagre. Deitou-lhe um olhar desconfiado e ao mesmo tempo desdenhoso. Estávamos num combate pela posse do "comando" que não era brincadeira, ou melhor: Ela comandava, eu deixava-a ir pelo caminho já preparado por mim. Isso irritava-a ainda mais. Esta mulher era especial e eu queria ver até que ponto era capaz de me surpreender. Limitei-me a abrir o "champagne" sem dizer muito, esboçando apenas um sorriso. Servi-o, um suave toque de copos, olhos nos olhos...

- Sei de um sítio onde o champagne sabe muito bem - disse eu, fazendo menção de me encaminhar para a varanda.

- Sei de outro onde sabe muito melhor...

Encaminhou-se para a casa-de-banho e começou a encher o jacuzzi. Voltou para o quarto, olhou-me nos olhos com uns olhos de criança, num sorriso sacana de mulher madura que sabe muito bem o que quer. Beijámo-nos. Beijámo-nos como se sempre o tivéssemos feito, como se os lábios estivessem habituados a encaixar, como se tudo estivesse habituado a interagir. O toque, a pele, o cheiro, tudo me parecia familiar. O Olhar... Um misto de "queres brincar comigo?" com "fode-me", foi algo que me prendeu imediatamente.

Desliguei o jacuzzi. Estava a introduzir demasiada confusão naquele ambiente. Acendi as velas da casa de banho. Enquanto se despia parecia lutar para aparentar uma segurança que estava longe de ter. Deixei-a entrar na enorme banheira e juntei-me a ela. Apenas o reflexo das velas, reflectido no espelhado da água permitia o contacto visual. Sentou-se no meio das minhas pernas, encaixando-se em mim, permitindo-me percorrê-la com as mãos. Pareceu relaxar e começar realmente a deixar-se ir. Já não era desafio mas sim prazer, tesão de sentir as mãos de um desconhecido a explorar o seu corpo.

As minhas recordações daquela noite foram interrompidas pela chegada da nossa "amiga" do dia anterior:


- Ainda quer companhia, ou hoje já desistiu?

- De modo nenhum, será um prazer. Porque haveria de desistir?

- Porque me convidou ontem? Posso saber?

- Não quer sentar-se primeiro? Assim parece que veio, não pela companhia, mas para inquirir. Permita-me... O que a levou a pensar que hoje desistiria do convite?

- Para começar, não entendi a motivação do convite...

- Já nos tínhamos visto no Moinho, depois aqui, ainda por cima com quem... Achei giro a coincidência e tive vontade de a conhecer. Não foi nada racional. Apenas um impulso. Foi má ideia?

Já tinha reparado na sua forma elegante de mexer no cabelo quando ficava tensa. Ficava-lhe bem. Fazia sobressair os olhos...


O Ele

29 de junho de 2008

Arrepios XVII...



No hotel tomou um duche e trocou as jeans confortáveis pelo vestido preto decotado e justo, mas igualmente confortável. Não era uma bebida entornada que lhe ía estragar o fim de semana, nem tão pouco uns penetrantes olhos negros. Desceu ao bar, com um leve sorriso estampado no rosto.

Repentinamente o sorriso desvaneceu-se. Não queria acreditar. Não podia acreditar!

- Que fazes aqui?? Seguiste-me?

Só mais tarde na tranquilidade do leito percebeu o ar incrédulo e surpreso dele. Conhecia-o bem. Por baixo daquela aparência extremamente elegante do seu metro e noventa musculado, de feições correctas e tez morena, sabia que estava um ser incapaz de mentira. Podia ser bruto, por vezes rude de palavras, demasiado frontal, sem evitar ferir, mas nunca lhe apanhara uma mentira.

- Estás louca? Acreditas mesmo que eu te seguiria?

- Sei lá...
respondeu, sem muita convicção.

- Pois deverias saber!! Vou pedir que me sirvam o jantar no quarto... disse-lhe, enquanto puxava para trás a madeixa de cabelo e deixava a descoberto os olhos grandes, brilhantes, luminosos, de um negro inconfundível.

Ficou parada junto ao balcão, a vê-lo sair. Era realmente um homem atraente. Atraía-a!...

Atravessou a sala e acabou por jantar sózinha numa mesa recatada do restaurante, embrenhada em pensamentos.

O Chivas acalmou-lhe o arrepio provocado pela aragem suave. O céu mantinha-se estrelado, mas à noite arrefecia sempre. Fixou o olhar no firmamento onde o mar e o céu se beijam e deixou-se embalar pela brisa fresca e o calor da bebida.

- Uma indiscrição em troca de uma bebida? Boa noite.

Não! Ali estava o parvalhão do Moinho, de copo esticado. “Mas o que é que este gajo quer?” Teve vontade de lhe atirar “Você não perde tempo!”

Já deitada, recordou a conversa, só então se apercebeu do toque inseguro da voz dele e do arrepio que aqueles olhos negros penetrantes lhe provocaram.
Enquanto o via afastar-se ainda sussurou “Gostava de apreciar a tua cara de parvo se eu aceitasse o convite”

Deixou para o dia seguinte, quando o viu sozinho a tomar o pequeno almoço.

“Ainda quer companhia? Ou hoje já desistiu?”

A Outra

28 de junho de 2008

Arrepios XVI...



Porque será que os homens nos tomam todas por loiras…?

Fez-me esperar à porta do bar dizendo que estava atrasado, quando na realidade estava algures nas redondezas, provavelmente a observar-me… será que achou que não percebi…? Por coincidência até estava encostada no carro dele, mas nem se esforçou a explicar-se.

Mora longe e marca um jantar num hotel no Guincho… Agora diz-me que vai telefonar ao carro… pois… se não o tivesse visto pelo espelho a dirigir-se ao bar, pedir uma bebida e sair para a varanda… devo ter mesmo ar de loirinha!

Deve ser por isso que os homens gostam de mulheres burras, não vêem nada, não ouvem nada, não dão por nada…

O pianista toca agora com destreza o Summer Night, instintivamente olho para ele, que me retribui com um aceno de cabeça à laia de cumprimento… curiosamente a cara não me é estranha, mas como frequento vários bares de hotel deve ter-se já cruzado comigo noutro sítio.

Faço sinal ao barman para me trazer mais um whisky e para servir um ao pianista. Quando me entregou o copo fez um sorriso entre o trocista e o divertido… deves saber mais da minha companhia, do que eu alguma vez saberei…

X regressou à mesa, com o ar mais calmo do mundo, passados uns 15 minutos.

- Pensei que me tinha abandonado…

Desculpou-se com uma conhecida que encontrou, mas os seus olhos vinham agora mais expressivos, mais gulosos… seria pela conhecida, ou por estar mais descansado de não ser denunciado por alguma amiga da sua cada-vez-menos-mulher?

- Ao jantar tornou a responder-me a uma pergunta com outra, é um hábito seu?

- Pensei que a minha resposta estava implícita. Perguntou-me se eu estava à altura das minhas provocações. Eu perguntei-lhe se estava à altura das suas. Foi você quem não respondeu à minha pergunta.

Desta vez os seus olhos foram bem explícitos. Não abriu a boca, nem precisava ter aberto… não estivéssemos num sítio tão acompanhado e acho que se tinha atirado à minha boca ali mesmo!

Estendeu a mão e passou-me o cartão do quarto.
Olhei o cartão e os seus olhos negros, de novo, o olhar de tesão contrastava com o sorriso sacana de quem está à espera que eu me esquive. Adoro quando acham que já me conhecem…

- Vamos subir, ou está à espera de mais alguém… disse, enquanto me levantava e lhe virava as costas

- Cabra… ouvi-o sussurrar

27 de junho de 2008

Arrepios XV...


Há alturas em que os acontecimentos se precipitam e mais vale não fazer nada.

No breve espaço de tempo que levámos a transpor o lobby comecei com o desagradável constrangimento de ter dado de caras com um ex-colega de quem nem sequer gosto, continuei com a agradável surpresa de ver a nossa "amiga" da tarde, para acabar na completa surpresa de, acto contínuo, os ver a discutir. Aproveitei para ir direitinho para o restaurante e evitar conversas.

Já durante o jantar, pelo canto do olho, apercebi-me dele a sair, visivelmente irritado, e ela a entrar no restaurante, acabando por jantar sozinha.

Qual seria a relação daquele tipo com ela? Na verdade não parecia nada pacífica. No entanto, ainda bem que assim foi porque, pelo menos, não tive que fazer conversa de circunstância com um tipo que era bem capaz de perguntar pela minha mulher. A verdade é que ele foi embora "pior que estragado" e ela ficou a jantar sozinha. Iria passar a noite?


Um sorriso mental invadiu-me. Será que a minha amiga tinha somado dois e dois e chegado à conclusão que eu morava demasiado longe para ir dormir a casa? Teria ligado isso com o facto de estarmos a jantar num hotel? Se o fez não o denunciou.

Eu gosto de uma provocação mas não perco a compostura. Há alturas em que não se pode ser consequente nas respostas e aí o melhor é ficar caladinho. No entanto, aquela resposta ficou a deambular na minha cabeça, a seu tempo se veria quem estava à altura das suas provocações. Para já, deleitava-me a alimentar o ambiente "denso" que se instalou. Por vezes a tensão alimenta a...


Já no bar, a conversa fluía descontraída, embalada pelo "Balvenie Portwood" e pelo som do piano. A ilustre desconhecida tinha estado algum tempo no balcão do bar, de copo na mão e parecia ter ido até à varanda. Se nos reconheceu, não o demonstrou. Pareceu-me fechada em si própria.


Eu estava um pouco apreensivo com o facto de ter sido visto por aqui por aquele tipo, alguém que não morria de amores por mim. Tinha como certo o lugar que ocupo neste momento na empresa e nunca o "digeriu" convenientemente. O tipo de pessoa que me prejudicaria se pudesse. Decidi saber mais.

- Importa-se que a abandone por um momento?

- Pode saber-se onde vai ou é segredo?

- Entre outras coisas, preciso de ir ao carro fazer um telefonema. Deixei lá o telefone para não sermos incomodados. Não demoro.


Passei pelo bar, perguntei ao barman, já conhecido, o que aquela senhora tinha estado a beber. Ele, com um sorriso cúmplice mas sem qualquer comentário, serviu-me uma dose que eu levei. Estava de facto na varanda como eu antecipara.

- Uma indiscrição em troca de uma bebida? Boa noite.

- Quem disse que eu queria uma bebida?

- Ninguém, mas aproveito para a compensar da que perdeu hoje à tarde, em parte por minha culpa.

- Presunção e água benta...

- Cada um toma a que quer, eu sei. No entanto, feliz ou infelizmente, conheço a pessoa que estava a falar consigo e gostava de saber se ele me viu.

- O meu marido? Pelos visto andava demasiado ocupado a perseguir-me. Não disse nada a respeito, se isso o conforta.

- Posso cometer a indiscrição?

- Quem disse que eu aceitava a bebida?

- O que se passou?

- Combinámos um fim-de-semana para descansarmos um do outro e pelos vistos viemos parar ao mesmo sítio. Pensei que me tivesse seguido mas já não tenho a certeza. De qualquer modo foi-se embora.

- Quer fazer-nos companhia?

- Ainda faltam acontecer algumas coisas entre vós para a companhia de alguém vos ser agradável.

- O que quer dizer?

- Que estão na fase da exploração. Aquela em que, quanto mais gente pior.

- Gosto de mulheres perspicazes. De qualquer forma, sinta-se à vontade para se juntar a nós se lhe apetecer. Quando for para a mesa vou comentar que encontrei uma pessoa conhecida.

Com a nítida sensação de que não o faria, passei pela recepção e voltei à mesa.

- Pensava que me tinha abandonado...

- Peço desculpa. Encontrei uma pessoa conhecida. Imagine que esteve a jantar na mesma sala que nós e não reparei nela.

- Alguém especial?

- A mulher de um ex-colega meu. Só quis que percebesse que não a tinha ignorado propositadamente mas apenas porque estava focado noutra pessoa.

- E estava?

- Ao jantar tornou a responder-me a uma pergunta com outra, é um hábito seu ?

- Pensei que a minha resposta estava implícita. Perguntou-me se eu estava à altura das minhas provocações. Eu perguntei-lhe se estava à altura das suas. Foi você quem não respondeu à minha pergunta.

Olhei-a nos olhos, enquanto passava para a sua mão o cartão do quarto, reservado no dia anterior.
O Ele

26 de junho de 2008

Arrepios XIV...




Atravessámos o lobby do hotel em direcção ao bar e ao restaurante, sentia o seu braço quente nas minhas costas e a mão direita que me agarrava a cintura, encaixando-me perfeitamente…

Escolhemos uma mesa aconchegada junto à enorme vidraça de frente para o mar, sentámo-nos, frente a frente, perscrutando-nos mutuamente.

Não sabia o que me atraía mais nele, se o olhar inquiridor, de quem procura ver para lá do exterior, se a voz ligeiramente rouca e sussurrante, só sabia que aquele desconhecido tinha mexido comigo.

- Preciso de ir ao WC…

- O WC fica junto ao bar. Não quer pedir a entrada primeiro?

- Confio no seu bom gosto, desde que não seja peixe cru ou cebolas…

Levantei-me e atravessei a sala em direcção ao bar. Sentia os seus olhos que me seguiam, observando-me sempre, tal como da primeira vez. Quando regressei o vinho já estava servido e a refeição pedida.

- Agora já não tem escolha. Disse com um tom meio sarcástico

- Escolha? Tenho sempre… respondi-lhe, enquanto cruzava a perna roçando-lhe intencionalmente a canela.

O brilho dos seus olhos negros teve um não-sei-quê de selvagem, de tesão pura. Senti-o arrepiar-se como se tivesse sido percorrido por uma corrente eléctrica.

- Você está à altura das suas provocações?

A gargalhada saiu-me forte, incontida e instintiva. Não era a primeira vez que me faziam aquela pergunta, mas já não a ouvia há uns anos. E a resposta só podia ser a mesma que na altura dera também…

- E você… está à altura das suas?

O jantar decorreu num quase silêncio, acompanhado de uns acordes de piano que vinham do bar, a sala estava quase vazia, com excepção de um casal de meia idade com ar de estrangeiros, de dois fulanos de fato e gravata e de uma mulher que jantava sozinha numa mesa junto a uma coluna. Lá fora, a Lua enchia de reflexos de prata o mar do Guincho.

- Tomamos o café e o whisky no bar? A música está bem agradável…


25 de junho de 2008

Arrepios XIII...



A manhã começou mal, com a falta de água que o fez chegar atrasado à reunião. Aquelas malditas reuniões enlouqueciam-no, especialmente quando a senhora engenheira resolvia estar presente. A mulher quase o fazia perder a compostura, nem tanto pela tesão provocada pela paisagem inebriante dos opulentos seios, mas pela incapacidade de proferir duas frases seguidas com nexo.

A tarde foi pior. Uma tresloucada, como o são todas as mulheres ao volante, enfiou-se na traseira do carro. Completamente histérica, ou não fosse mulher, saiu do veículo aos berros, lavada em lágrimas. Num laivo de machismo gritou-lhe “as mulheres deviam ser proibidas de conduzir!”

Agora, só queria esquecer o chorrilho de insultos de que foi alvo e as horas perdidas na 2ª circular. Rumou ao Guincho com o Sol a bater-lhe de frente. Estacionou e sentiu um arrepio quando a aragem fresca lhe envolveu a camisa transpirada. Entrou no hotel, pediu um quarto com vista para o mar...

O banho aliviara-lhe o stress do dia. Enquanto abotoava o cinto, apreciou da varanda as cores avermelhadas do céu em fim de tarde. “Onde estará ela?” pensou, sentindo alguma melancolia que logo procurou desviar. As coisas não andavam a correr bem ultimamente e quando ela lhe propôs passarem o fim de semana separados, concordou de imediato.

Olhou o relógio. Ainda tinha tempo para uma bebida no bar antes do jantar. Talvez estivesse por lá alguma mulher bonita. Não que estivesse ali à procura de mulher, por hoje chegava de mulheres!

A música de fundo e a decoração requintada tornavam o ambiente austero mas acolhedor. Aproximou-se do balcão “um Logan, por favor...” Um casal cinquentão ao fundo, dois homens aparentemente de negócios, nada de mulheres... a não ser a que acabava de entrar seguida do...
“Que faz o gajo aqui acompanhado daquele mulherão??...”

O OUTRO

23 de junho de 2008

Arrepios XII...


Há algo em todos nós, possivelmente reminiscência do tempo em que, como seres humanos, tínhamos de lutar pela vida na verdadeira acepção da palavra, que nos diz quando estamos a ser observados.

Senti-o naquele momento, uma fracção de segundo antes de me cruzar com o olhar dela, um misto de "Estes gajos não tinham mais sítio nenhum para onde vir fazer esta merda..." com "Já agora deixa-me lá gozar a cena que até é capaz de ser giro".
A verdade é que se acomodava confortavelmente para assistir, não se preocupando sequer em disfarçar. Os seus olhos continuavam pregados em mim.
Não sendo propriamente exibicionista, aquela situação estava a acrescentar um ingrediente extra a algo já de si muito bem temperado. Uma espécie de pimenta no chocolate que se derretia na minha boca com o calor daquele beijo.

Concentrei-me no que estava a fazer. Aquela boca era uma tentação irresistível, os olhos meigos, inundados de tesão, pareciam atrair os meus para um abismo de sentidos. As minhas mãos não conseguiam parar de percorrer aquele corpo tão exposto, aquela pele arrepiada pelo meu toque.

Os meus lábios fugiram pela face, largando, aqui e ali, pequenos beijos que iam fazendo subir um pouco mais a ânsia de exploração.
A nossa "espectadora", embora tentando manter uma postura descontraída, ajeitava-se na cadeira cruzando e descruzando as pernas e não tirava os olhos de mim.
Foi com o olhar fixo no dela que deixei as pontas dos meus dedos deambular pelos ombros, enquanto a minha língua saboreava gulosamente a orelha acabando com um olhar de convite, ao mesmo tempo que chupava languidamente o lóbulo, provocando um arrepio total, qual choque eléctrico que se propagou e fez com que, ao cruzar a perna mais uma vez, a nossa "voyeur" tivesse dado uma pancada na mesa que entornou a bebida.

Com uma irritação contida perante o meu sorriso sacana, levantou-se e dirigiu-se ao bar para pagar, antes de se retirar. Um último olhar de soslaio e desapareceu.

Eu estava demasiado inebriado com o que a vida me proporcionava naquele momento para pensar muito no assunto.
Apetecia-me beijar, cheirar, tocar, lamber... aquela mulher madura, tesuda e meiga ao mesmo tempo, de quem não sabia sequer o nome. Encontráramo-nos como se já nos conhecêssemos e não lho cheguei a perguntar. Imaginava como isso estaria a ser interpretado.

Decidimos abandonar aquele sítio com alguma relutância. Caía a noite, estava a arrefecer e eu estava a antecipar um jantar bem agradável no "Hotel do Guincho".
A curta viagem foi feita num ambiente de antecipação calma. As mãos procuravam-se languidamente enquanto o carro percorria os poucos quilómetros.

À entrada um breve relance para o bar revela algo do qual eu estou absolutamente convicto:

Por vezes o Universo conspira...
O Ele

21 de junho de 2008

Arrepios XI...



Os olhares tinham-se tornado bem mais descontraídos e expressivos… se por um lado sentia que me observava cada movimento, cada reacção, por outro a forma como “falavam”, aqueles olhos negros, era cada vez mais intensa.

Senti uma mão que me pousou no pescoço, as caras que se aproximavam, quase imperceptivelmente, até os lábios se tocarem… suaves, macios, gentis… mas logo a carícia se transformou em beijo intenso, devorador… as bocas pareciam ter ficado coladas por uma qualquer força de atracção, sentia-me incapaz de me afastar, arrastada por uma onda de prazer, quase a levitar…

Uma mão segurava-me fortemente o pescoço, como se tivesse medo que fugisse, enquanto a outra me acariciava a perna, subindo devagar, deliberadamente, aumentando o arrepio…

Aquela boca, aquela língua, aquele beijo… tudo me parecia familiar, até a intensidade voraz, incontida… como se o mundo fosse acabar e nada mais existisse!

Libertou-me o pescoço, foi descendo a mão direita, acariciando-me os ombros, as costas… e descendo, até quase se encontrar com a esquerda, fechando-me num abraço vigoroso que me apertava contra o seu peito… sentia-lhe o coração bater forte, descompassado, numa aceleração só comparável à força daquele beijo...

Quando por fim descolámos as bocas, à nossa volta a noite quase se tinha instalado já… tinha a pele arrepiada, mas já nem conseguia distinguir bem porquê… sentia-me tremer, mas não conseguia perceber se apenas por dentro, ou se no exterior também.

Olhou-me fixamente nos olhos, tinha agora uma expressão totalmente diferente, onde passavam laivos de satisfação, de carinho, à mistura com alguma confusão. Sem falar sequer, levantamo-nos, pôs-me novamente o seu casaco quentinho pelos ombros e abraçou-me fortemente de encontro ao peito.

- Vamos jantar, a noite está fresca e está a ficar gelada.

Não consegui responder, estava de tal forma anestesiada que só dei por chegarmos ao carro, encostei-me na porta, meia a cambalear, quando me soltou debaixo do seu braço… agarrou-me suavemente no queixo e levantou-o, para me fixar os olhos de novo, pousou um beijo suave nos meus lábios e abriu a porta, enquanto me sussurrava no ouvido:

- Vamos, senão não resisto…

Descíamos agora a minha estrada favorita, já com a lua a espalhar sobre o Guincho os seus raios prateados… a noite estava divina!


20 de junho de 2008

Arrepios X...



Sentara-se numa mesa junto ao muro. Poisou a mala e sobre a mesa a bebida que trouxera do balcão. Sorveu um golo do líquido avermelhado a saber a groselha com travo de rum.
Deixou-se ficar a olhar o mar azul, numa tonalidade característica de fim de dia, que a obrigava a vaguear em recordações.

Uma leve brisa provocou-lhe um arrepio, precisamente no momento em que um casal se aproximava.

Que chatice! Isto estava tão sossegado... pensou

Acabou por notar que passara despercebida. Uma árvore simpática encobria-a ou estariam ambos demasiado embrenhados no seu enamoramento.

Colocou o casaco sobre os ombros, aconchegou-se melhor na cadeira e preparava-se para retomar a vaga de pensamentos interrompida, quando novo arrepio a assolou. Os lábios de ambos acabavam de se roçar, até se transformarem num beijo sofrego e demorado.

Susteve a respiração, num acto quase caricato de quem não quer ser apanhada. Aninhou-se ainda mais na cadeira, por trás da cumplicidade da árvore, mas não desviou o olhar.

A mão esquerda dele percorria-lhe agora a perna, sobre o tecido fino do vestido. Quase conseguia sentir o calor da mão, a sensualidade dos lábios, a humidade da língua...

Por um instante cruzou-se com os negros olhos. Arrepiada, do frio ou da excitação, vestiu o casaco, sem deixar de o fixar...

A Outra

19 de junho de 2008

Arrepios IX...



Às vezes o Universo conspira.

Tinha escolhido um encontro num sítio em Lisboa para não a afugentar. No entanto ia com o firme propósito de fugir dali.


As circunstâncias tinham-nos posto num dos sítios mais agradáveis que conheço, na altura ideal do dia, com o clima ideal, uma brisa morna e agradável, e, cereja no topo do bolo, dia e hora de jogo da selecção nacional num sitio sem televisão. Resultado: Apenas um casalinho de namorados num recanto e nada mais.


Entrámos para pedir, no caso um gin tónico e uma caipirinha, dizendo que íamos lá para fora.

Escolhemos um autêntico camarote com vista para o mar. A menina veio com as bebidas:

- Os senhores vão-me desculpar, eu vim agora aqui trazer as bebidas mas não posso voltar, uma vez que estando cá sozinha, não me posso afastar tanto do balcão...

- Deixe lá. Se for preciso mais alguma coisa, vamos buscar. Não tem problema algum.


Tive vontade de a beijar...

- Acho que não ficámos a perder com a troca de sítio. Que lhe parece?

- Absolutamente. Já fiquei a conhecer mais um sítio.

- Venho eu, de fora, mostrar sítios aos amigos de Lisboa.

- Não é de cá? Não se nota nada.

- Na verdade sou, mas neste momento vivo mais para norte. Já reparou que estamos destinados a partilhar varandas sobre o mar?

- Há coisas muito piores...

- Pode ser que desta vez não me despache...

Sorriu de uma forma que me pareceu um bocadinho sacana, ao mesmo tempo corava ligeiramente.

- Sentiu-se despachado? Acho que não fez nada para que eu o despachasse.

- Ao telefone, no Hotel, despachou-me completamente.

- Queria dizer-me ao telefone o que não me tinha dito na cara?

- O que queria que eu tivesse dito?

Respondeu-me apenas com o olhar.


A minha mão, que andava despreocupada pelas costas da sua cadeira, pousou no seu pescoço e beijámo-nos.


Um beijo que começou morno e terno mas que, quase instantaneamente, aqueceu e se tornou num "combate" de línguas.

O Ele

17 de junho de 2008

Arrepios VIII...



- Não é um pouco longe? Eu nem sequer trouxe carro…


- Não se esqueça que prometeu sair da cidade, vai ver que até lhe sabe bem o passeio!


Disse, enquanto passava o braço, roçando-o suavemente nas minhas costas, para abrir a porta do carro… o arrepio que me provocou era inexplicável, raios!... Só então percebi que me tinha encostado mesmo no carro dele, que coisa!


Pelo caminho os meus olhos vagueavam perdidos na paisagem, enquanto do pensamento não me saía o arrepio da pele…


- É sempre assim tão silenciosa? Prefere que ponha um pouco de música?


- Desculpe, estava perdida nos meus pensamentos, e a ser indelicada… não estou mesmo grande companhia!


- Vai continuar a desculpar-se a noite toda, ou vai deixar-me tentar animá-la? Tem um sorriso tão especial, não entendo porque o esconde tanto.


- Desc… hihihi, já me ia a sair outra vez… lido com pessoas o tempo todo e tenho de lhes sorrir, quando descontraio o sorriso desaparece.


- Isso não é verdade… já a vi sorrir sozinha…


Subíamos a serra, com o mar e o Guincho à nossa esquerda.


- Adoro esta estrada! Deve ser a mais bonita estrada portuguesa, senão a mais bela da Europa.


- Vale a pena, só para lhe devolver o sorriso percorria-a vezes sem conta!


Levantou a mão em direcção ao meu rosto e afastou-me uma madeixa de cabelo que lhe encobria o campo de visão. Senti a suavidade e a avidez com que o fez, o à-vontade com que me tocou, pele na pele, como quem beija com a mão… de novo o arrepio, de novo…


Entrámos por uma estrada de terra batida e parámos junto de um moinho, de frente para o mar. A vista era deslumbrante! O Guincho resplandecia de sol, o mar estava de um azul intenso, apetecia ficar ali a olhar, simplesmente.


- Vamos? Disse enquanto me abria a porta.


Passou-me o braço por cima do ombro enquanto me ia indicando o caminho, pelo meio da vegetação, descobrindo-me aos olhos uma esplanada cheia de recantos e praticamente vazia àquela hora, sentámo-nos num deles, de frente para o mar, confortavelmente instalados, com um fim de tarde que começava a ganhar tons rubros.


- Os seus olhos perdem-se sempre no mar!


Olhei-o de frente, os olhos negros pareciam ainda mais profundos, assim fixos em mim...

16 de junho de 2008

Arrepios VII...



A sério que quando combinei às seis, estava convencido que o bar estaria aberto.


Estava a pensar numa bebida ao fim da tarde, eventualmente um "snack", marginal ao fim da tarde e jantar no hotel do Guincho. Um programa discreto.


Só depois me apercebi que o ponto de encontro só abria às sete.


O meu primeiro impulso foi o de mandar uma mensagem a avisar da obrigatória mudança de planos. Não durou muito.


À hora marcada lá estava eu num café de onde poderia observar sem ser detectado. Não consegui resistir a observar a sua reacção.


Chegou de táxi, aproximou-se da porta, olhou lá para dentro, consultou o horário afixado na porta e fez uma cara de poucos amigos.


Peço desculpa pelo atraso. Tive uma reunião que se prolongou, mas já estou a caminho...


Ficou a olhar para o telefone. Parecia um pouco "perdida" mas a tentar manter a pose.


Ainda está fechado. Quanto tempo?


Não acho boa ideia conduzir e enviar sms, por isso não respondi. Ficou a olhar para o telefone, com alguma impaciência. Ao fim de pouco tempo resolvi aparecer. Não queria arranjar uma inimiga logo à partida.


- Consegue perdoar-me esta confusão?


- Vai ter que me compensar.


O beijo suave, no canto do lábio foi esclarecedor.


- Tinha pensado em jantarmos para os lados do Guincho. Há um sitio maravilhoso para se estar a esta hora, perto do Cabo da Roca. Parece-lhe bem?

O Ele



15 de junho de 2008

REENCONTROS





foto de Marília Campos



Separaram-se quando ela foi trabalhar para Madrid.
Ele não podia ir, e não aceitou a decisão dela.
Cinco anos sem se verem, porque quando vinha a Portugal, o que pouco acontecia, por não haver ninguém que a esperasse, nunca tinha tentado entrar em contacto com ele.
Mesmo com os amigos, amigos dos dois, não tinha sido necessário dizer-lhes que não estava interessada em o encontrar.
Mas estavam sempre os dois a par da vida de cada um, por os amigos terem pena de o ver separados e sempre contavam como estava cada um dels.
Souberam de tentativas de amores fracassados, de um lado e do outro. A vida profissional corria-lhes melhor, a um e a outro.
Mas ela estava de volta, a comissão de serviço como lhe chamava, tinha acabado.
Vivia em Azeitão e fora nesse dia à Arrábida.
Estava na água fria quando sentiu que alguém lhe agarrava nas pernas e a puxava para baixo.
Esbracejou assustada, mas lembrando-se que só poderia ser brincadeira de algum amigo acabou por se deixar arrastar
Foi debaixo de água que o viu, que se deixou abraçar e vieram á tona onde se beijaram matando saudades de cinco longos anos.
- foi o João que me disse que esta era agora a tua praia. Estou à tua espera à cinco dias.
- sabes como sempre gostei da Arrábida
Tendo-a ao colo e não deixando de beijar cada bocadinho da sua pele.
Ela tocando-lhe por todo o corpo e vieram até à borda de água sem se lembrarem de se perguntarem se estariam os dois livres para se poderem continuar a amar
- Estou cheia de fome. Vem até à minha casa que ainda não conheces
- Tens lá cama? com sorriso trocista
Gargalhando foi explicando que tinha pouca coisa ainda, que se acabava de mudar, mas que cama, fogão esquentador e um frigorífico bem recheado, havia
- Champagne, tens?
Rindo ainda,
- Claro, já esqueceste que onde estou tem de haver Champagne? Despacha-te, estou capaz de te comer....
Ainda na garagem encostou-a á parede não parando de a beijar e dizia-lhe baixinho o bom que é quando da praia vêm, com tão pouca roupa para despir, despertando-lhe a parte de cima do bikini beijando-lhe os mamilos, ela gemendo, mas afastando-o e puxando-o pela mão para cima da relva, rebolaram por ela, enquanto o despia beijando-o.
As mãos dele percorrendo-a toda, relembrando o corpo porque há tanto ansiava, tirando-lhe a parte de baixo, deixando-se escorregar para a poder beijar, lamber, ela com as mãos na sua cabeça, perdida num prazer que já não se lembrava de ter tão intenso.
Já escorrendo, pedia-lhe para a tomar toda, que tinha fome dele, que o queria dentro de si.
Ali, só o sol foi testemunha de gritos e sussurros, de carinhos e beijos, de saudades postas em dia, acabando em mergulho dentro da piscina, renovados, recompensados, para mais tarde tudo recomeçarem.

Muito mais tarde, ele acabou por abrir a garrafa de Champagne, conhecer os cantos à casa e de saber como era a cama

13 de junho de 2008

Arrepios VI...



Sentia que estava a brincar ao gato e ao rato, com alguém que desconhecia completamente… se por um lado isso me dava um gozo difícil de explicar, por outro levantava algumas defesas naturais… num misto de vontade de provocar e de fugir da situação, um daqueles dilemas nem sempre facilmente ultrapassáveis.
- Apetecia-me que me tivesse convidado para ficar a tomar um copo ao fim do dia no “nosso” terraço…
- Apenas isso?

Estava a entrar na brincadeira, diria mais, estava claramente a virá-la contra mim… a obrigar-me a abrir o meu jogo, a confessar os arrepios inconfessos… sentia-o à vontade a fazê-lo, como quem domina o jogo da sedução.

- Podíamos sempre jantar alguma coisa, conversar um pouco…
- Isso é um convite?
- Ahahaha! Conseguiu pôr-me onde queria…?! Isso soa-me a manipulação. Referia-me a se eu tivesse aí ficado ontem…
- Já percebi que não consigo arrancar-lhe um convite, permite ao menos que a convide eu?

Hesitei por momentos, um jantar é sempre uma coisa pública, os meus níveis de conforto pareceram-me razoavelmente estáveis, respondi-lhe:

- Se for em Lisboa… para esta semana chega de viagens…
- Amanhã à noite? Mas cede a sair da cidade, que ao sábado não há nada de jeito aberto… prometo que não vamos para longe!
- Se promete… mas aviso-o que estou estafada, não serei a melhor das companhias…
- Deixe isso por minha conta :-)

Voltei ao trabalho ainda a pensar na situação, podia estar à procura de uma chatice, mas era só um jantar… que mal tinha? Aquela sensação de arrepio transferira-se agora para o estômago, não me foi fácil almoçar, não sei se pelo cansaço se por aquele arrepio que sentia cá dentro…

A tarde passou a correr, finalmente era 6ª feira à noite e ia poder relaxar. Cheguei a casa preparei um banho de imersão bem cheio de espuma, acendi umas velas pela casa, liguei a aparelhagem, aqueci o meu balão de cristal e servi-me de uma dose generosa do meu whisky velho favorito.

Deixei-me ficar dentro da banheira a sentir a carícia quente da água e da espuma, a beber aquele néctar suavemente aquecido e a ouvir a minha música favorita até quase ao esquecimento.

Quando saí, o telemóvel tinha duas novas mensagens… respondi à primeira, abri a segunda e leio:

- Não quero acreditar que ainda esteja a trabalhar a esta hora! X

Estava datada das 20:15, mas já passava das 21:00h, ainda hesitei mas acabei por responder:

- Estava a tomar um belo banho de imersão, só agora acabei
- Bem me podia ter convidado…
- Não sabia que também gostava, hihihi! Fica para a próxima!
- Não me vou esquecer…
- Quem sabe… depois de um belo queijo, isso passa-lhe…
- Amanhã às 18, está bem para si?
- Não é um pouco cedo para jantar? Onde combinamos?
- Tomamos um aperitivo antes. Conhece o bar Luca, perto do Marquês? Às 18 espero-a lá!
- Se fica em Lisboa, hei-de encontrar… não se preocupe!
- Durma bem. Um beijo X

10 de junho de 2008

Arrepios V...


Do varandim do hotel a manhã parecia radiosa.

O mar estava calmo, com aquele azul-esverdeado que só ele tem. Do vento das manhãs dos dias anteriores, só restava uma brisa morna que antecipava o Verão e me confortava o espírito, enquanto o pequeno-almoço me confortava o estômago.

Lembrava-me dela, exactamente ali. Da sua voz rouca, do ar distante e próximo , da sua forma de me chamar para sí e de me manter a uma distânia de segurança ao mesmo tempo. Apenas aquele sms a traíra. Notava-se que fora produto de um impulso e quando assim é.... Se calhar devia ter avançado um pouco mais.

Ao fim de uns anos a frequentar hoteis fica-se com anti-corpos em relação a certas situações. Um dos anti-corpos que criei foi contra gente que acha que basta estalar os dedos e os homens ficam a babar. A esta distância não me pareceu ser o caso.

A verdade é que continuava a pensar no assunto. Entre a papaia e o pão de sementes com requeijão e doce de abóbora peguei no telefone para reler as sms do dia anterior.

Tinha uma nova.

- Dormiu bem?

- Muito bem. Não se devia ter ido embora. O dia está bem melhor que ontem. Estou na "nossa varanda" a tomar o pequeno-almoço.

Continuei a comer calmamente, já com o telefone à frente. Pouco tempo depois, nova mensagem:

- Quer companhia?

- A essa distância parece muito mais afoita. Gostava de ter ficado?

- Sempre era melhor que estar a trabalhar.

- Um mal menor...

- Não foi isso que quis dizer.

- O que é que quis dizer?

- Gostava que eu tivesse ficado?

- Não se responde a uma pergunta com outra.

A resposta não veio. Tomei café e dirigi-me para a piscina do hotel. Quando estava a sair da água ouvi o sinal de nova sms a chegar.

- Gostava...

- De quê?

- De ter ficado.

- Para não ter que ir trabalhar ou pela companhia?

- Ambas as coisas.

- Meio obrigado.

- Porquê?

- Só posso agradecer pela parte que me toca. Acredito que o senhor das sms também tenha tido peso na sua decisão. Continua sem dizer quem é?...

- Neste momento é você.

- Não se notou muito que tivesse vontade de ficar.

- Você também não fez muito por isso...

- Não gosto de ser inconveniente. O que é que gostava que eu tivesse feito?
O Ele

6 de junho de 2008

Arrepios IV...


- Vou tratá-lo por X, agrada-me o mistério, Mr. X… o sorriso maroto deve ter sido notório, tenho uma cara que não esconde nada, mas fez de conta que não percebeu.

Despedimo-nos com um beijo na face e entrámos nos quartos… por momentos deixei-me ficar encostada à porta, sentia agora o coração que parecia querer saltar do peito, tal era a intensidade com que batia…

Deixei-me escorregar encostada na porta e fiquei sentada no chão a pensar no que se estava a passar comigo. Fui acordada do torpor pelo toque do telefone do quarto…

- Sim…?
- Como está? Já pronta para dormir?
- Nem me deu tempo… dê-me um minuto para me despir…
- Tem a certeza que não precisa de ajuda…?

O riso incontido soltou-se de novo, desta vez mais forte.

- Acha que já estou incapaz de me despir? Aguento beber bem mais…
- Acredito! Mas tem-se defendido sempre…
- Estou cansada, apenas isso, e o dia de amanhã vai ser longo e duro.
- Vou deixá-la descansar, gostei do seu timbre rouco ao telefone…Tenha uma boa noite!
- Para si também!

Esta viagem estava a tornar-se interessante… sentia-me extenuada, nem a televisão liguei e em pouco mais de 10 minutos estava a dormir.

De manhã reparei num papel, no chão, junto à porta do quarto, apanhei-o e deparei-me com um recado:

X
91xxxxxxx
Ao seu dispor
Tenha um bom dia!

Guardei-o no bolso do casaco antes de sair e nunca mais me lembrei dele… o dia passou rápido e intenso, as reuniões sucederam-se umas às outras, o almoço a correr, no fim a apresentação para o grupo… entrámos no carro, para regressar a Lisboa, já passava das 7 da tarde e a viagem era longa.

Parámos numa área de serviço para comer qualquer coisa, quando meti a mão no bolso à procura do isqueiro senti o papel, tirei-o e fiquei a olhar para o número… nahhhh! Voltei a guardá-lo e acendi um cigarro.

De volta ao caminho, o bendito papel parecia querer queimar-me o bolso… tirei-o e decidi mandar um sms:

Um beijo, a caminho de Lisboa

Outro, a olhar o mar no terraço e a pensar em si. X – respondeu

Que tenho eu de especial para que pense em mim?

Um dia talvez lhe explique…

Calei-me. Que raio estava eu a fazer? Apetecia-me provocá-lo, fazê-lo dizer aquilo que me apetecia ler, desafiá-lo a encontrarmo-nos noutro local, noutras circunstâncias… mas o bom senso foi mais forte.

Encostei a cabeça no banco e deixei-me embalar pelos sons do Oceano Pacífico, já só o oiço quando regresso assim tarde de viagem… o pensamento estava disperso, vagueando de novo… só quando senti a iluminação da 2ª Circular regressei à realidade, era 1 da manhã, mas estava quase em casa.

Entrei, larguei as malas, fui-me despindo em direcção ao quarto e fui tomar um duche rápido, quando ia para desligar o telemóvel reparo que tinha uma nova mensagem.

Já dorme?

Quase, estou mais morta que viva!

Tenha uma boa noite…

Adormeci a pensar naquela frase: Tenha uma boa noite...

4 de junho de 2008

Arrepios III...


- Foi muito amável ao emprestar-me o seu casaco à pouco. Mais uma vez, obrigada.

- Não me agradeça. O seu cheiro ficou nele. Foi compensação suficiente.

- ...

- Peço desculpa. Não a queria embaraçar. A verdade é que foi muito agradável. Posso perguntar se está por aqui em trabalho?

- Infelizmente. E você?

- Uma mistura. Vim a trabalho mas aproveitei para descansar um pouco. Vou ficar mais dois dias e depois volto ao "inferno".

- Porque é que presumiu que eu estava em trabalho?

- Achei a sua companhia ao jantar demasiado formal para ser prazer. Juntando isso com o facto de os ter abandonado para vir para aqui, acrescentando as sms durante o jantar... Fiquei com a sensação de que a companhia que desejava não estava ali.

- Estava a espiar-me? Isso é muito feio...

- Apenas a admirá-la e a lembrar-me do seu cheiro no meu casaco. Por momentos pensei que tinha corado quando me viu. Depois, reparei que não era eu o culpado.

- Tem sempre tantas certezas a respeito de tudo?

- Posso perguntar quem era? Marido?

- Não.

- Não era o seu marido?

- Não pode perguntar...


Estava a adorar aquele risinho que, junto com o facto de estar a corar novamente, indicavam que algo estava a ter efeito. Eu, ou o alcool? Seria isso importante? Nem tanto. O alcool não inventa nada, só nos desinibe.


- Não queria ser indiscreto. Peço desculpa.

- Não peça. O meu estado civil não me define. Apenas isso. E você? É casado?

- Cada vez menos.

- Devia-se criar esse estado civil, não acha?

- Se calhar devia acabar-se com os estados civis. Resolvia-se muita coisa. Posso trazer-lhe mais uma bebida?

- Está a fazer-se tarde. Na verdade, acho que me vou deitar, apesar da agradável companhia. Amanhã tenho um dia comprido, que acaba numa viagem para Lisboa.

- Nesse caso subimos juntos. Parece-lhe bem?

- ...


Entrámos no elevador. Senti-a corar de novo quando se apercebeu que estávamos no mesmo piso e ainda mais quando chegámos à conclusão de que os nossos quartos ficavam quase em frente um do outro. Não fiz um convite forçado nem esperei que me convidasse a entrar.


- Posso ligar-lhe? Podemos conversar mais um pouco enquanto não adormece.

- Acho que sim. Tem nome? Cavalheiro do casaco quentinho...

- O meu nome não me define...


O Ele

31 de maio de 2008

Arrepios II...



Subo ao quarto com a sensação de frio no corpo e de arrepio na pele… a temperatura agradável do quarto começa a reconfortar-me.

Tenho quase uma hora até ao jantar, meto-me debaixo de um duche bem quente, deixo-me ficar a saborear cada gota que me escorre pelo corpo aquecendo-o… preciso de tirar o arrepio daqueles olhos da minha pele…

Quando, por fim, saio já tenho 3 mensagens no telemóvel, vou respondendo:

Desço dentro de 10 minutos, podem ir andando para o restaurante.

Mais um jantar sem ti… fazes-me falta…

Visto uma roupa mais confortável, pego num agasalho e desço.

Jantamos e vamos planeando o dia seguinte, o telemóvel vai vibrando com uma mensagem ou outra e vou respondendo, sempre com a sensação de estar a ser observada… até que o vejo sentado ao balcão no bar…

Os olhos negros estão de novo postos em mim – respondo à mensagem

Provoca-o! - responde-me

Tonto! Sabes que não o faria…

Não consigo deixar de corar quando os nossos olhos se cruzam de novo…

Continuamos a conversar, já passa das 11h e ainda estamos à mesa…

- Preciso de fumar um cigarro, desculpem.

Decidem subir, deixando-me só. Procuro o empregado e peço-lhe um café e um whisky velho em balão aquecido, servido no terraço.

Sento-me confortavelmente num sofá de canto, a ouvir o mar e a saborear cada baforada do cigarro, de balão na mão… o telemóvel já parou de receber mensagens, e a minha mente dispersa-se…

O vapor ligeiramente aquecido do álcool tem o dom de me fazer voar, sinto-o nas narinas e nos lábios… fico a apreciar o seu gosto aveludado… apetecia-me uma massagem para libertar a tensão dos músculos, o duche não foi suficiente…

- Posso fazer-lhe companhia, agora…?

Só consigo vislumbrar-lhe o vulto à contra-luz, mas a voz ligeiramente rouca é inconfundível…

- Claro que sim, mas agora estou agasalhada… o risinho nervoso e incontido solta-se de novo.

- Já reparei que não precisa dos meus préstimos, mas tinha esperança que da companhia…

Sinto-lhe o tom trocista, espero que não tenha percebido que me fez corar de novo. Senta-se ao meu lado, próximo, demasiado próximo até… consigo sentir o calor da sua perna através da roupa, o cheiro da barba acabada de fazer, o perfume amadeirado, o brilho no olhar…

Mais uma vez, descaradamente, aquele olhar me observa, me perscruta agora o rosto… como se me quisesse ler o que me vai na alma… mais uma vez não consigo evitar o arrepio…

30 de maio de 2008

Arrepios I...



Fiquei a observá-la enquanto se dirigia para o elevador, o chamava, entrava nele.

Só um ultimo olhar, já com as portas a fechar denunciou a sua curiosidade.

Estaria sozinha? A fazer o quê, ali, a meio da semana? Não perdi de vista o percurso do elevador que parou no 5º piso. O mesmo em que estava hospedado. Apenas uma feliz coincidência.

Resolvi subir ao quarto, tomar um banho e rever as notas do trabalho desse dia, numa preparação do seguinte.

Tive por momentos a sensação de que, no quarto ao lado, alguém estava no duche. Até podia ser impressão minha. Seria ela? Nem sequer sabia o seu nome mas a verdade é que ocupava o meu pensamento.
O seu perfume, misturado com o seu cheiro tinha ficado no meu casaco. Indelével mas perceptível, pelo menos para mim que me lembrava dele.

Fiquei durante um bom bocado a trabalhar no quarto até decidir que não iria jantar mas apenas comer qualquer coisa no bar do hotel.

Do balcão do bar conseguia vê-la.

Jantava, acompanhada de dois homens. Não me pareciam mais do que colegas.

Apenas quando o telemóvel avisava da chegada de um sms o seu rosto se iluminava um pouco mais.

Fui "apanhado" a olhar para ela numa dessas situações.

Uma expressão mista de gozo e constrangimento pela súbita partilha de intimidade surgiu no seu rosto.

Não havia no entanto sinais de desagrado naquele olhar quando o desviou para responder à mensagem, senti-a corar ligeiramente quando respondeu.

Teve o cuidado de não deixar o olhar resvalar na minha direcção. Notei que tinha de se esforçar para o fazer...



O Ele

28 de maio de 2008

Arrepios...



O fim de tarde estava maravilhoso, raiado de sol e de pequenos farrapos de nuvens, fico a olhar o sol que mergulha, vermelho, no mar.


No bar do hotel o som suave do jazz e dos blues davam um ambiente aconchegante e acolhedor.


O amplo terraço sobre o mar estava agora deserto, eram horas de jantar e já todos se tinham retirado.


Deixei-me ficar de copo na mão, rodando-o e brincando com ele, de olhos perdidos no céu e no mar, embalada na música.


Busco com o olhar o barman, para lhe pedir outra dose com um leve aceno do copo. Quando o sinto junto a mim com o novo copo, pergunto:


- Pode-se fumar no bar?


- Não, mademoiselle, vai-me desculpar mas, só é permitido fumar no terraço.


- Obrigada...


Saio para terraço, a noite está a refrescar e a pele arrepia-se... acendo o cigarro e debruço-me ligeiramente sobre o parapeito, o mar bate nas rochas uns metros mais abaixo, sente-se o cheiro a maresia e a Lua começa a espalhar uma suave claridade de prata.


Os pensamentos vão vagueando, ao ritmo do mar, do cigarro que arde, do sabor macio do vinho, dos sons abafados que vêm do bar... quando sinto uma voz rouca que me diz:


- Permite-me...? enquanto um casaco, ligeiramente quente, assenta sobre os meus ombros.


- Obrigada...


Viro-me ligeiramente e deparo-me com uns olhos, lindos, negros, profundos... o meu ar de espanto deve ter soado a susto...


- Não pretendo incomodar, mas achei que devia estar a arrefecer... permita-me a ousadia...


- Mas... assim vai ficar ao frio...


- Ao seu lado, nunca!


Saltou-me uma gargalhada, incontida e algo nervosa... aqueles olhos, parecia que me liam...


- Não quer sentar-se um pouco? disse, enquanto apontava para um confortável sofá.


- Talvez noutra ocasião, agora é melhor ir mudar de roupa para jantar, está realmente a arrefecer...


Regressamos ao interior do bar, devolvo-lhe o casaco e agradeço com um beijo na face.


Enquanto me dirijo à porta não deixo de sentir um arrepio... aqueles olhos negros que me seguem, que me perscrutam os movimentos... Huumm... perturbante...

27 de maio de 2008

ONDAS DE PRAZER



Sempre gostou de aprender línguas, falava várias: espanhol, inglês, francês, alemão mas faltava-lhe o italiano, embora percebesse quase tudo não o sabia falar.
Uma amiga deu-lhe o nome de um professor de italiano, que era dessa nacionalidade embora tivesse sido casado com uma portuguesa, mesmo depois do divórcio, tinha ficado por cá.
Marcello, tinha-lhe perguntado se queria aulas privadas ou em conjunto. Ela que tinha pouco dinheiro, disse que só poderia pagar em conjunto, mas que não sabia nada de nada.
Tinha aulas com mais quatro, às segundas, quartas e sextas.
Era a mais nova de todos, 3 rapazes e uma rapariga, que ficou contente por a ver, não se sentindo já tão em desvantagem.
Marcello com uns quarenta e 1 ou dois anos, lindo como só os italianos são.
Rosa, ficava-lhe bem o nome, loura escura, olhos verdes, cabelo comprido, alta e esguia tinha aparecido a primeira vez de jeans, que lhe definiam as ancas e o o rabo bonito. À saída Marcello fez-lhe um elogio sobre como lhe ficavam bem as calças. Ficou agradada, tinha 26 anos e achava-o 'bellissimo'
Nas vezes seguintes apareceu de saia curta e Marcello não tirava os olhos dela. Nesse dia à saida deixou ficar a mão no seu ombro e como ela não tivesse dito nada, deixou-a escorrer pelas costas abaixo, até lhe afagar o rabo e a deixar descair até ao fim da saia, princípio da coxa.
Ela, inconscientemente, tinha-se chegado a ele. Marcello, em voz alta, disse-lhe que no dia seguinte, terça, lhe daria uma aula privada, porque estava a ter problemas em acompanhar as aulas e que com duas ou três aulas sozinha, seria o suficiente para poder acompanhar melhor as aulas.
Mas a mão continuava a subir pela perna, sentindo-lhe o calor que lhe provocava. Empurrou-a para a porta, quando os outros já iam de saída. Até amanhã, prometeu.
No dia seguinte à hora marcada Rosa apareceu com ar desenvolto, como nada se tivesse passado. Sentou-se na mesa habitual, á espera que a aula começasse. Marcello sentou-se ao lado, e a aula começou. Ele ia-lhe ensinando algumas dificuldades da língua, enquanto uma mão passeava pelas suas pernas. Ela deixando fazer como se nem sentisse, respondia aplicada ao que lhe ensinava. Mas o calor estava lá e a humidade também.
Marcello levantou-se, semi-praguejando - Ah! Tu precisas de ser ensinada a não brincar com um homem.
Obrigou-a a levantar e beijou-a enquanto com pressa lhe tirava a blusa e enquanto lhe beijava o peito, tirou-lhe a saia empurrando-a para o quarto onde a deitou em cima da cama. Ficou quase nua, só com as meias...

Ele deixando-lhe rastos de chamas pelo corpo, até atingir o centro do seu prazer. Chegado ali, parou e disse-lhe que era a vez dela.
Olhou-o consternada, e ele riu como quem diz, se julgavas que era só eu, estás bem enganada.
Ela começou a despi-lo a medo, mas conforme ia descobrindo o seu belo corpo, já de desejo cheia, acabou rapidamente por lhe tirar a roupa, querendo cavalgá-lo. Ele não deixou, nesse dia seria só oral, comandou.

Disse-lhe para se ajoelhar, e meteu-lho na boca, agarrando-lhe a cabeça e imprimindo-lhe os movimentos que queria ela fizesse, ora mais rápidos, ora mais lentos para se poder aguentar e não se vir de imediato. Quando já quase gritava, deixou-se cair sobre a cama sempre com a cabeça dela agarrada, para que continuasse, que não parasse agora que estava a gritar. Ele continuava a gemer devagarinho depois da onda de prazer já ter acabado, foi quando lhe largou a cabeça e ela deitou-se ao seu lado.
- Inverte a posição
-como? Perguntou assustada, e ele sorrindo trocista disse
- está descansada, chegou a tua vez

Então foi a vez de ela gemer e gritar, gritar e gemer pelo prazer intenso que ele lhe dava ao brincar tanto com os dedos, como com a língua ou de a chupar. E foi a vez de ela o tornar a abocanhar, lateralmente que é como dá mais prazer, por mais livres estarem para se poderem movimentar.
Já em casa, saciado o desejo, mergulhada em lagoas de prazer, sonhou que era por ele penetrada.